Chapada dos Veadeiros investe em agroflorestas

Com reflorestamento e práticas sustentáveis, Cerrado pode adquirir sua produtividade original

Anjee Cristina - de Alto Paraiso (GO)

O Cerrado, quem diria, não é mais aquele. Aquele, há milênios atrás, era floresta. Quando os homens chegaram trazendo o fogo é que as árvores começaram a se retorcer e a mata foi encolhendo. Até dar no que é agora. Essa é a visão de Ernst Götsch, consultor em agroecologia, para quem o cerrado é um torso da floresta amazônica e foi um sistema produtivo muito mais fértil há 30 mil anos, transformando-se ao longo do tempo pela ação do homem, especialmente com as queimadas.


O suiço Ernst Götsch, em trabalho de consultoria com produtores locais, dá a sua receita de produtividade: diversidade, densidade e trato

Trabalhando há 25 anos com recuperação de áreas degradadas, Ernst aposta que o cerrado quer voltar a ser floresta e pode se tornar muito mais produtivo do que é agora. Segundo ele, basta plantar. E nessa assertiva repousa a principal recomendação aos seus clientes: é dando que se recebe, pois então é preciso dar à terra muito mais cobertura vegetal do que ela tem agora.

" A gente é que cria o deserto, a natureza cria a floresta. A terra que a gente esquenta perde a vida, na terra que permanece fria debaixo da mata a vida continua".

Reflorestando a Chapada

Morador da Bahia, Emst passou uma semana visitando terras da Chapada dos Veadeiros, a convite de duas ONGs locais: Instituto Lua de Desenvolvimento Sustentável e Oca Brasil Preservação e Ecologia.

Essas ONGs estão buscando recuperar e desenvolver terras degradadas com a criação de agroflorestas. Seguindo os conselhos dos permacultores, elas procuram integrar os diversos sistemas produtivos valorizando os recursos locais e a interação entre práticas tradicionais e tecnologias inovadoras sustent áveis.

O interesse dos produtores locais pela agroecologia e a permacultura fez com que se formasse em Alto Paraíso um Centro de Transferência de Tecnologias Sustentáveis. Algumas instituições se juntaram para viabilizar esse programa pioneiro: Fundo Mundial para a Natureza (WWF), Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (UCA), Universidade de Brasília (UnB) , Embrapa e Prefeitura Municipal de Alto Para íso.

O Centro de Transferência de Tecnologias Sustentáveis fica numa área de 4 hectares, ao lado da antiga horta comunitária. Já existem no local horta, pomar, construções rústicas feitas com recursos locais, biodigestor e sistema de compostagem. A área escolhida é um desafio: muito degradada, fica no centro da cidade.

Ali se procura criar uma relação sustentável com o ambiente, de maneira que os resultados posssam servir como efeito demonstrativo para os produtores locais. Estão sendo desenvolvidas práticas sustentáveis de manejo do solo e aproveitamento dos recursos. No projeto está prevista a implantação de outras 12 áreas demonstrativas na zona rural.

Seguindo o TAO

O namoro da Chapada dos Veadeiros com a agroecologia não surpreende o suíço Ernst Gotsch. Segundo ele, o Brasil é o país que mais está se afinando com a proposta de reflorestar intensivamente, talvez porque tenha uma alma mais feminina: "as mulheres são mais capazes de conceber um sistema de co-criação com a natureza, porque estão mais abertas para se doarem do que para explorarem ".

Engano pensar que a terra é ruim, que a terra não dá. Plantando, dá. Plantando e reflorestando é que se devolve à terra sua riqueza original, insiste o consultor, que lança um desafio aos seus clientes: para se ter uma área realmente produtiva, é preciso plantar até 12 árvores por metro quadrado, crescendo juntas e se desenvolvendo em extratos e dimensões diferentes. Sem medo da competição, porque a natureza abriga mais esp écies companheiras do que o homem pode imaginar.

O exemplo vem de casa. Ernst conta sua experiência na Bahia, onde possui uma fazenda e uma empresa de agrosilvicultura: com muito plantio foi possível reverter o microclima da região onde mora e trazer mais chuva. Os córregos secos voltaram a correr, a erosão acabou.

Diversidade, densidade e trato é a receita básica de Ernst:

" O segredo, na verdade, é não fazer. Tudo está sendo feito pela própria natureza, a gente só tem que observar e assumir uma parceria com ela, entrando num sistema de co-criação. Tudo o que precisamos fazer é descobrir nossa função junto àquele ecossistema para que ele possa se desenvolver melhor. E seguir o princípio do Tao, o fluxo da própria natureza."

Mais informações Instituto Lua: (62) 446-1484
Associação dos Condutores de Visitantes: (62) 446-1690
OCA: (62) 446-1166

Fonte: Folha do Meio Ambiente, Brasilia, no. 118, Agosto/2001, pag. 35


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