Cuidando da Natureza, Cuidamos da Humanidade

Palestra proferida na Segunda Oficina de formação de multiplicadores socioambientais, Canarana - MT

por Fabiana Mongeli Peneireiro
Engenheira Agrônoma - MsC em Ciências Florestais na ESALQ/USP
email:[email protected].(tirar_essa_parte).yahoo.com


 

Percebemos cada vez mais que precisamos da natureza para podermos viver bem: ar puro, água de qualidade e em quantidade, terra fértil, plantas as quais nos fornecem alimentos, medicamentos, fibras e várias outras matérias primas. Nos esquecemos de que fazemos parte da natureza. Somos, naturalmente, nos ecossistemas, um animal de grande porte. Durante nossa evolução parece que nos distanciamos da natureza e nossas ações refletem uma postura individualista, explorando as outras espécies e os recursos naturais. E ao explorar, geramos como resultado de nossas ações, menos recursos para a vida e portanto, dificultamos nossa permanência nesse planeta, principalmente para as futuras gerações. E possível mudarmos esse cenário. Basta mudarmos nossas atitudes. Devemos sempre nos perguntar: o que posso fazer para ser útil no lugar, gerar condições para mais vida e aumentar a qualidade dos recursos para a vida. Em conseqüência dessa atitude, também nos beneficiaremos, pois então teremos os recursos necessários para a nossa permanência com qualidade de vida nesse planeta.

Perceber a paisagem para atuarmos é fundamental. Entender como as coisas funcionam, estar aberto, observar, aprender com a natureza. Fechamos nossos canais de comunicação, de percepção, mas ainda temos essa capacidade, se praticarmos e usarmos todos os nossos sentidos.

Vamos entender uma microbacia: uma porção da paisagem com relevo característico, onde se tem divisores de águas e um vale, por onde a água escoa. Esse padrão da paisagem, caracterizada como uma célula, se repete em escalas maiores até chegar em grandes rios, que deságuam no mar. Para que a dinâmica da microbacia se processe de forma adequada, de forma que a bacia possa ser considerada “saudável”, a cobertura vegetal cumpre um papel fundamental. As ações humanas transformam radicalmente a vegetação com o uso que faz da terra.

A cobertura florestal é muito importante para a saúde de uma microbacia, pois as árvores recebem o impacto das gotas da chuva, a água da chuva chega suavemente no solo, que fica coberto com uma camada de folhas secas, galhos, flores, sementes, que chamamos de serapilheira. Na camada superficial do solo, ou até mesmo em contato com a serapilheira, fica uma malha de raízes finas, que extraem nutrientes da matéria orgânica em decomposição. A matéria orgânica possibilita uma atividade intensa de pequenos animais e microorganismos no solo, que por sua vez, junto com a matéria orgânica, fazem com que o solo fique estruturado, cheio de poros, como se fosse uma esponja, pelos quais a água pode infiltrar e alimentar o lençol freático. Dessa maneira a água flui de forma praticamente constante todo o ano e filtrada, de boa qualidade. Quando retiramos a cobertura florestal e deixamos o solo exposto, quando realizamos queimadas ou mecanização do solo, o solo fica sem matéria orgânica, desestruturado e totalmente a mercê do impacto das gotas de chuva. A água escorre por cima formando enxurradas, levando solo (processos erosivo) e entupindo os córregos (assoreamento). Isso faz com que haja picos de escoamento da água (enchentes) e diminui a constância o fluxo de água porque o lençol freático não é devidamente alimentado.

Além disso, o solo coberto é mais fresco e úmido. Uma floresta é composta por várias espécies, que se desenvolvem em diferentes contextos (nichos) e ocupam o espaço vertical de forma bastante completa, com seus estratos (altura que ocupam). Cada espécie necessita de uma qualidade de luz. Algumas precisam de luz direta para se desenvolverem, outras ficam bem quando chega até ela luz filtrada pelas folhas das plantas que ficam acima. Toda essa diversidade e estratificação da floresta fazem com que a energia do sol seja aproveitada de maneira ótima. E os animais desempenham um papel muito importante: os menores, de polinizadores e os de grande porte, de dispersores de sementes e escoadores de matéria (ao se alimentarem de frutos e lançarem seus excrementos em outros locais ou mesmo na água). Podemos aprender com a natureza e pensar nossos sistemas de produção de alimentos e outras matérias-primas de maneira que funcionem cumprindo funções ecológicas importantes. As plantas que utilizamos para nos alimentar são geralmente exigentes em solos férteis. Se não possiblitamos com nossas ações que o solo se mantenha fértil, então temos que recorrer a “muletas” ou os insumos (fertilizantes químicos). Além disso, se se faz monocultura, também se fará uso de agrotóxicos para o controle de insetos, doenças e mato. Além da agricultura, como atividade impactante, a criação inadequada de gado também é bastante prejudicial aos recursos naturais, pois o gado, quando entra nos cursos d’água ou mesmo em açudes, causa desbarrancamento, conseqüentemente erosão e assoreamento. Além disso, monoculturas de gramíneas como pastos prejudicam a fauna silvestre (que não tem condições ou ugar adequado (habitat) para viverem e impossibilita a boa infiltração da água e, portanto, o abastecimento do lençol freático (água subterrânea). Da mesma maneira como há alternativas para a agricultura também há para a criação de gado. A presença da árvore na paisagem é fundamental, seja como cercas-vivas, quebra-ventos, corredores ecológicos, agroflorestais e sistemas silvo-pastoris (pasto com árvores).

Conceitos Fundamentais que alicerçam as agroflorestas sucessionais

Temos observado resultados muito promissores com agrofloresta sucessional na realidade da agricultura familiar para diferentes biomas (Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga). Esses exemplos (no Acre, na Bolívia, na Bahia, em Goiás) se baseiam nas experiências de Ernst Götsch, um agricultor-pesquisador, que há 25 anos se dedica ao estudo e prática de agroflorestas sucessionais. Ele nos aponta os seguintes princípios a se considerar:

  • replicar os processos que ocorrem naturalmente;
  • compreender o funcionamento do ecossistema original do lugar;
  • assim como uma forma de vida dá lugar a outra, criando condições ambientais satisfatórias, um consórcio também cria outro (baseando-se na sucessão natural);
  • inserir a espécie de interesse no sistema de produção dentro da lógica sucessional, tentando se basear na origem evolutiva daquela espécie (condições ambientais originais, consórcios que geralmente acompanham a espécie, suas necessidades ecofisiológicas, etc.).


O método utilizado na implantação e manejo das agroflorestas em questão, em essência, é uma tentativa de replicar as estratégias usadas pela natureza para aumentar a vida e melhorar o solo. Da mesma forma que na natureza, onde as plantas ocorrem m consórcios (e não isoladas) e requerem outras plantas para um ótimo desenvolvimento, na agrofloresta as plantas cultivadas são introduzidas em consórcio, de forma a preencher todos os nichos, inclusive considerando nessa combinação, espécies nativas remanescentes, da regeneração ou reintroduzidas. Além de combinar as espécies no espaço, combinam-se os consórcios no tempo, assim como ocorre na sucessão natural de espécies, onde os consórcios se sucedem uns após outros, num processo dinâmico, dependendo do ciclo de vida das espécies.  Outro aspecto fundamental é a introdução de alta diversidade de espécies, replicando uma característica marcante de ecossistemas da Mata Atlântica, o bioma original.

Para uma melhor compreensão, seguem as definições:

Consórcio = conjunto de espécies que apresentam tempo de vida semelhante, ou seja, que dura mais ou menos o mesmo tempo no sistema. Ex. 1: milho, feijão de corda e abóbora; ex. 2: abacaxi, mandioca e mamão; ex. 3: urucum, ingá de macaco, pupunha e guapuruvu; ex. 4: cacau, cupuaçu, inajá, cajá, pequi. Os consórcios podem ser mais diversificados, com outras espécies que desempenham as mesmas funções de outras. Por ex. em vez de pequi, pode-se ter também um ipê-roxo ou jatobá cumprindo o mesmo papel. Uma agrofloresta completa deve ter presente todos os consórcios, garantindo a perpetuação do sistema no tempo e um aumento de qualidade de vida consolidada (transformação no solo pelo acúmulo de matéria orgânica e interações biológicas).

Estrato = altura da planta em relação às plantas do mesmo consórcio. Ex. 1: milho (estrato alto), feijão de corda (estrato médio) e abóbora (estrato baixo); ex. 2: abacaxi (estrato baixo), mandioca (estrato médio) e mamão (estrato alto); ex. 3: urucum (baixo), ingá de macaco (médio), pupunha (alto), guapuruvu (emergente); ex. 4: cacau (baixo), cupuaçu (médio), inajá (médio/alto), cajá (alto), pequi (emergente). Uma agrofloresta completa deve ter todos os consórcios, bastante diversificada, com todos os estratos, garantindo que o espaço vertical seja bem ocupado e que a energia solar seja otimamente complexificada.

Densidade = número de indivíduos por área. Recomenda-se que as culturas anuais e semi-perenes sejam plantadas no espaçamento tecnicamente recomendado. As espécies arbóreas deverão ser plantadas, preferencialmente por sementes, em alta densidade (10 árvores por metro quadrado). O manejo fará com que, com o tempo, as árvores atinjam o espaçamento recomendado, só que quando adultas, ou seja, com o tempo vai havendo raleamento das plantas menos vigorosas. Essa prática possibilita o avanço da sucessão, não deixando espaço para que haja retrocesso, com a ocupação do espaço por indivíduos de espécies do início da sucessão. Além disso, a alta densidade oferece oportunidade de se dinamizar os sistema, favorecendo aporte de matéria orgânica e conseqüentemente dinamizando a vida do solo e a ciclagem dos nutrientes. Na medida que crescem se vai raleando para não passar da porcentagem de fechamento das copas para cada estrato: Emergente – 15 a 25%; Alto – 25 a 50%; Médio – 40 a 60%; Baixo – 70 a 90%. Por exemplo, numa mata madura o pinheiro, que é uma espécie emergente não ocorre de maneira que suas copas se toquem, pelo contrário, a densidade de indivíduos é baixa e se aproxima com o dado cobertura de copa de 15 a 25% da área.
É muito importante que se permita o estabelecimento da regeneração natural, uma vez que as espécies que venham a surgir espontaneamente na agrofloresta podem ser incorporadas nos consórcios e manejadas, contribuindo com uma maior biodiversidade, ocupação de espaço e produção de matéria orgânica no sistema.

Pode-se acelerar a sucessão numa agrofloresta utilizando-se do manejo, que consiste basicamente em:

Capina seletiva: as plantas herbáceas, de início da sucessão, que já se encontram senescentes ou maduras, são arrancadas ou cortadas e depositadas sobre o solo, poupando aquelas mais avançadas na sucessão.

Poda: a poda deve ser feita para rejuvenescer o sistema, na medida que as plantas podadas vão rebrotar e as plantas adjacentes geralmente respondem positivamente a essa intervenção. Além disso, o material resultante da poda deve ser devidamente picado e depositado sobre o solo, cuidando-se para colocar o material mais lenhoso em contato com o solo e em curva de nível.  O critério para a poda deve ser a sucessão. Assim, quando um galho está seco, ou mesmo injuriado por insetos ou doença, ou então quando a planta está mostrando sinais de maturidade ou velhice, essa deve ser podada, considerando-se o seu estrato, a arquitetura da copa e a relação com as outras plantas do entorno. Além disso, a qualidade da operação de poda é muito importante para garantir a perfeita rebrota da planta. Para tanto se deve cuidar para que o galho não lasque ou rache, e isso se consegue com o auxílio de uma serra (quando o galho é relativamente grosso) ou facão bem afiado, em movimento de baixo para cima (quando o galho é relativamente fino). O material da poda deve ser depositado, preferencialmente ao pé de alguma planta, logo após ter sido efetuada a capina seletiva no local. Não se recomenda depositar o material orgânico encima das plantas vivas. Quando uma árvore cumpre a sua função e outra de um consórcio futuro está estabelecida e desenvolvida, a árvore do consórcio anterior pode ser cortada embaixo e o tronco e/ou galhos podem ser utilizados para lenha, madeira ou mourão, ou então todo o seu material depositado sobre o solo para ser reciclado. É importante, quando uma agrofloresta for implantada ao lado de uma mata ou árvores já adultas, que se faça o manejo do aceiro, ou seja, uma poda, para que não haja interferência negativa das árvores já adultas sobre a área nova, em crescimento.

No manejo da agrofloresta sucessional, todos os esforços são dirigidos para reciclar e aumentar a quantidade de matéria orgânica produzida.
Alguns detalhes devem ser observados:

As sementes devem ser obtidas de várias populações (sendo da mesma espécie, as sementes devem ter procedência de várias matrizes e de diferentes locais), para garantir sustentabilidade genética.

Sinais como injúrias de insetos e doenças, bem como sintomas de deficiência ou morte de indivíduos devem ser observados, atentando que podem ser explicados como uma tensão no sistema ou falha no manejo.

A demanda por mão-de-obra é concentrada no momento de implantação do SAF, portanto, a prática de mutirões é sempre indicada. As intervenções de manejo demandam conhecimento sobre as espécies, observação e precisão, como uma jardinagem. Além disso, o conhecimento acerca das espécies tem outro aspecto interessante: quanto mais o(a) agricultor(a) conhece a espécie e seu uso, mais retorno pode ter do SAF, seja para uso da família (alimentação, medicamentos, artesanato), seja para alimentação dos animais, seja como uso de espécies – chave como repelentes/atratoras de fauna/insetos, seja para o mercado.

Se entendermos que uma floresta é um mosaico de clareiras de diferentes idades, podemos pensar na paisagem ou na propriedade como um mosaico de agroflorestas em diferentes etapas de desenvolvimento. Dessa maneira se pode estar produzindo espécies de início de sucessão (arroz, milho, feijão) numa parcela e outras plantas como mandioca, mamão, maracujá em outra parcela, e em parcelas mais avançadas na sucessão, frutas, lenha e madeira. Quando um sistema atinge sua maturidade, pode-se recomeçar, tendo como balanço da atividade produtiva, bastante matéria orgânica e solo em excelentes condições para se cultivar as espécies importantes para nossa alimentação.

Os principais insumos nesse sistema de produção são sementes, conhecimento e mão-de-obra. Esse tipo de agricultura contribui para a autonomia do(a) agricultor(a) e utiliza basicamente insumos locais. É muito importante pensar em toda cadeia produtiva: do sistema de produção ao mercado, comercializando os produtos com preço justo. Para isso a organização social é fundamental.

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